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Mostrando postagens de maio, 2025

05 - Biópsia (Tentativa 03)

Tendo sido responsável pela quebra de uma sequência de sucessos em extração de material para biópsia através da punção guiada por tomografia, volto ao consultório do hematologista para saber o que fazer depois do desengano. Foi decidido que um cirurgião do centro oncológico seria responsável pela extração do material e que dessa vez seria uma laparoscopia que, não é a cirurgia mais invasiva do mundo, mas é uma cirurgia. Com internação, anestesia geral, aquela comida monocromática de hospital antes de se ficar em jejum e aquele look transado entreaberto nos fundos deixando uma visão apocalíptica para enfermeiros, acompanhantes e demais desavisados que possam ter a má sorte de me ver de costas. Precisava então, de um cirurgião oncológico e que me foi apresentado pelo médico sanguíneo. Dr. Michel Chebel, que, naquele momento, assim como eu, não sabia que seria responsável por quatro dos oito procedimentos dos quais eu ainda iria me submeter durante todo o tratamento, foi o cirurgião des...

04 - Biópsia (Tentativa 01)

  Após determinar que eu não estava sofrendo com algum tipo de problema urológico, Dr. Eduardo Zanim me indicou um jovem hematologista do COT, o Centro de Oncologia do Triângulo. O tamanho dos linfonodos mostrados na imagem da tomografia e a consequente suspeita de linfoma, deram início à uma corrida para se obter o diagnóstico correto o mais rápido possível. Uma vez que estivesse com a biópsia em mãos, poderia entrar com o pedido de tratamento no Hospital do Câncer de Uberlândia, aquele mesmo do bordado no jaleco. A primeira tentativa para se identificar a doença foi proposta pelo novo médico. Havia em Uberlândia, um profissional que realizava um procedimento que não era tão invasivo quanto uma laparoscopia. Não lembro qual era a sua especialidade. Só sei que o método era chamado de punção guiada por tomografia, durava em média uma hora, não precisava de acompanhante, dispensava anestesia geral e o mais importante, ficava bem mais em conta que uma cirurgia. Dinheiro, claro, era ...

03 - Diagnóstico (Parte 02)

  Na volta a Uberlândia, procurei imediatamente por um. Mais uma vez, pedi a amigos que pudessem indicar um médico de confiança. Felizmente, dois deles, que também são médicos, me apontaram para o mesmo nome: Dr. Eduardo Zanim. Dr. Zanim era uma figura lacônica e que poderia ser facilmente confundida com alguém que tem um desprezo profundo por seus pacientes. Não sorri, não conversa sobre o tempo, futebol, nem mesmo sobre o escândalo que não parava de passar na TV naquela época, a operação Carne Fraca, aquela do papelão na carne moída. Ele também não tem muito interesse na sua vida pessoal e isso talvez possa deixar muita gente desconfortável. Alguns poderiam até dizer que ele é mal-educado. Felizmente, eu estava cagando (sentindo dores ainda) se ele era ou não, gente boa. Não estava ali para falar dos meus sentimentos. Ele não era o meu terapeuta. Curiosamente, mesmo com certa rispidez, senti uma firmeza naquele profissional. Uma firmeza que faltava no médico gente fina que havia ...

02 - Viagem

  O ano de 2017 chega sem maiores contratempos. As dores de novembro não aumentam e eu me dou por curado da meralgia parestésica. Essa paz permitiu que novos planos profissionais e pessoais fossem traçados. Motivado pelas boas vendas no fim de 2016, houve um aumento na produção da empresa em janeiro e, logo após, no mês seguinte, já começavam os preparativos para o Saint Patrick’s Day. Uma data importante, tanto pelo potencial de venda quanto pela comemoração da criação da Angara. O feriado irlandês foi responsável pela oficialização do nome pois, antes mesmo de a ter batizado, a fabriqueta já vendia alguns produtos para colegas de trabalho, amigos e familiares. Porém, foi só com o convite de servir os comensais da saudosa loja uberlandense de insumos cervejeiros, Fuggles, no dia verde de 2013, que a necessidade de um nome surgiu para fins de divulgação do evento. Decidir pelo nome Angara não foi difícil. Eu sempre quis homenagear de alguma forma o país onde concluí o ensino médi...

01 - Diagnóstico (Parte 01)

  Diagnóstico (Parte 1)   “O que você fez para ter câncer?” A pergunta acima talvez tenha sido a mais frequente durante todo o tratamento. E eu não tenho uma resposta. Normalmente eu respondo dizendo que não sei. Ou que eu tive azar. Loteria genética. Tem 8 bilhões de pessoas no mundo. Algumas ficam doentes. Não existe muito mistério nisso aí. Além disso, eu não acho que tive câncer. Eu acho que foi o câncer que me teve na maior parte do tempo. O verbo ter indica posse e posse indica controle. Até as medicações fazerem efeito e darem condições para o meu corpo não ser um refém de células que crescem desenfreadamente como Gremlins molhados, eu fui cativo. Acho que nós, seres humanos, temos problemas em admitir que estamos sob o jugo de algo invisível e quando percebemos, tentamos virar o jogo dizendo que somos os donos dessa ou daquela mazela, como se a tivéssemos comprado e assim, numa tentativa de sermos aqueles que controlam, talvez possamos não nos sentir tão impotent...

00 Introdução - Você não é um lutador

  Introdução - Você não é um lutador. “Moléstia e saúde eram dois caroços do mesmo fruto, ...” Machado de Assis em Quincas Borba O tratamento de um câncer não é uma batalha. Eu poderia ir além e dizer que nenhum tratamento, seja qual for a doença, o é. Pelo menos não para o paciente. Já adianto que eu, particularmente nessa condição, não lutei. Me submeti a exames, aguardei resultados e acatei com os procedimentos propostos pelos médicos que me trataram. Mas não houve luta. Lutas, batalhas, guerras, são travadas contra um inimigo. Um câncer pode até parecer isso, algo que te causa dor, que te mutila e ameaça a sua existência. Mas é impessoal. Está dentro de você naquele momento e faz parte do seu corpo. A quimioterapia deixa isso muito claro. Para acabar com a doença é necessário que se acabe, até certo ponto, com o seu próprio organismo porque naquele momento os dois são uma coisa só. Não se fala que você está um tanto por cento doente e outro tanto saudável, quando observam...