01 - Diagnóstico (Parte 01)

 

Diagnóstico (Parte 1)

 

“O que você fez para ter câncer?”

A pergunta acima talvez tenha sido a mais frequente durante todo o tratamento. E eu não tenho uma resposta. Normalmente eu respondo dizendo que não sei. Ou que eu tive azar. Loteria genética. Tem 8 bilhões de pessoas no mundo. Algumas ficam doentes. Não existe muito mistério nisso aí. Além disso, eu não acho que tive câncer. Eu acho que foi o câncer que me teve na maior parte do tempo. O verbo ter indica posse e posse indica controle. Até as medicações fazerem efeito e darem condições para o meu corpo não ser um refém de células que crescem desenfreadamente como Gremlins molhados, eu fui cativo. Acho que nós, seres humanos, temos problemas em admitir que estamos sob o jugo de algo invisível e quando percebemos, tentamos virar o jogo dizendo que somos os donos dessa ou daquela mazela, como se a tivéssemos comprado e assim, numa tentativa de sermos aqueles que controlam, talvez possamos não nos sentir tão impotentes diante da realidade.

Mas eu sei que não é isso que as pessoas querem ouvir. Eu sei que o que algumas pessoas procuram quando me questionam a respeito do câncer é por algum tipo de associação com as suas próprias vidas. Identificar pontos nas suas trajetórias que possam indicar algo em comum com a minha experiência e assim poderem ajustar, remediar ou tomar algum tipo de providência em suas próprias vidas. Muitas vezes também é só curiosidade. Não importa. O fato é que eu não tenho uma resposta para a pergunta. Por isso, o que faço aqui é narrar o que senti antes de começar o processo de investigação das causas da doença.

E essa investigação começou no final de 2016 quando eu era o proprietário de uma pequena empresa de alimentos especializada em embutidos e defumados que estava em plena ascensão. Trabalho que exigia muito, fisicamente. Carregar quilos e quilos de carne, desossar, picar, moer, embutir, defumar ou colocar para fermentar, secar e curar, empacotar e rotular. Todo o trabalho era feito em pé. E não parava por aí. Tinha a parte da limpeza, atendimento, entregas, compras e administração. Eu era praticamente uma empresa de um homem só, salvo pelas quintas, sextas e sábados que abríamos como bar e haviam dois funcionários para o serviço noturno. Em Uberlândia, fui o pioneiro num ramo gastronômico de Garde Manger (Cozinha  Fria) chamado Charcuterie (Charcutaria – fabrico de salames, bacon, linguiças, carnes curadas e/ou defumadas, patês, terrines, entre outros.) e planos para uma expansão já começavam a tomar forma. A procura por um novo ponto, contratação de uma nova pessoa para dividir e otimizar o processo de produção e limpeza e abertura de mais dias na semana para o público. A Angara, empresa que batizei com esse nome pelo fato de ter morado um ano na Rússia como estudante (Angara é o nome do único rio que o lago Baikal, o mais profundo lago de água pura do mundo, cede às terras frias da estepe siberiana), estava crescendo. Mas eu estava exausto e não conseguia encontrar tempo para treinar outra pessoa. Trabalhava com o corpo no limite, pedindo folga, mas crente de que 2017 seria o ano da virada. Foi, mas não do jeito que eu imaginava.

Enquanto isso, nesse período, em meados novembro, comecei a sentir algumas dores na região lombar e notar que estava urinando com uma frequência acima do normal. Não prestei muita atenção na parte urológica e foquei mais nas dores lombares, até por que estava com bastante sobrepeso e havia a carga do trabalho diário. Tenho 1,76 e estava pesando aproximadamente 115 kg. Mas me sentia saudável e tinha uma vida bastante ativa. Havia feito exames de check-up geral para analisar triglicérides, ácido úrico, glicemia, colesterol, entre outros no meio do ano. Nenhuma alteração. Eu estava aparentemente bem.   

Após uma série de eventos e festivais em que a Angara foi responsável por cuidar da parte de alimentação, consegui cavar uma folga em meio ao ritmo alucinante de trabalho. Uma viagem de três dias a Curitiba para assistir a um dos shows da última turnê do Black Sabbath. Durante a minha estada na capital paranaense, notei que, além de ter mais vontade de ir ao banheiro para urinar, havia também uma pequena dificuldade no ato. Uma pressão diferente causada, talvez, por algum tipo de obstrução na uretra. Além disso, uma sutil dor nos testículos começava a incomodar e as dores não se concentravam apenas nas costas. Eu comecei a sentir dores na parte frontal da bacia também.

Confesso que só fiquei realmente preocupado porque associei o que estava sentindo com o relato de um ex-aluno, dos tempos em que eu era professor de inglês. Alguns anos antes, este ex-aluno me contou a história de um rapaz que tinha mais ou menos a mesma idade que eu, uns 34 anos, jogava tênis regularmente e começou a sentir algumas dores no quadril, cuja intensidade foi sendo mascarada pelo uso indiscriminado de anti-inflamatório. No caso, o rapaz continuou jogando tênis pensando que estava tudo sob controle visto que as dores desapareciam após o uso do medicamento. Quando se deu conta do estrago, a cabeça do fêmur estava necrosada, vindo a sofrer uma fratura de quadril. Fiquei apavorado lembrando do horror que senti ao ouvir o que havia acontecido com esse tenista amador e pesquisando sobre como era o procedimento cirúrgico, próteses de quadril, tempo de recuperação e imaginando que ia virar um algum tipo de instrumento meteorológico pois, não sei se vocês já ouviram falar a respeito de pessoas que têm algum tipo de prótese de platina ou qualquer outro tipo de material metálico poderem prever quando a chuva está para chegar. Nunca soube se isso era ou não verdade. Só sei que não era minha intenção me tornar uma Maju Coutinho ambulante. Aterrorizado com aquilo, já havia me autodiagnosticado.  Eu sabia que a nimesulida era algo temporário e que eu precisava me consultar. Procurei um ortopedista recomendadíssimo por amigos. Não tinha plano de saúde. Marcada para a primeira semana de dezembro, a consulta durou aproximadamente 30 minutos e custou R$300,00. Fui com a cara do médico. Um homem alto, de meia idade, começando a ficar grisalho, bem-humorado e o mais importante, ele era fã de Heavy Metal. Irmandade metal estabelecida, o fellow headbanger fez as perguntas costumeiras, pediu novos exames de sangue, urina e um raio x para ter certeza de que não era o desgaste da cabeça do fêmur, minha suspeita principal. No consultório, pediu para eu que me deitasse e cruzasse as pernas. Não senti dores nem encurtamentos. Pensei, ótimo. Está tudo certo. É só sobrepeso. Vamos aguardar os resultados dos exames e voltar para o retorno. Resultados prontos e mais uma vez, nenhuma alteração negativa. Estavam até melhores que os do meio do ano. Na imagem do raio x, um grande alívio. Ausência de anomalia nos ossos do quadril. Fêmur em perfeito estado e a chance de eu ser controlado por Magneto reduzida a zero apesar de todo o medo sofrido inutilmente por antecipação. Durante a consulta de retorno, é dado o diagnóstico: meralgia parestésica. Um tipo de inflamação no nervo femural lateral. Um curto circuito doloroso que segundo o médico poderia estar sendo causado por roupas apertadas. Tratamento: Usar calças, bermudas e cuecas mais folgadas na linha da cintura.

-Só isso, Dr?

-Só isso. E tente perder um pouco de peso. Mas no mais, é só isso.

E foi só isso mesmo por um tempo. A investigação para descobrir o que estava me deixando doente foi interrompida diante o diagnóstico de um nervo claustrofóbico que estava cansado de viver apertado sob as minhas calças, bermudas camufladas e cuecas de baixa qualidade vendidas em montes de 3 por 10 em lojas populares. O fato é que na época, me dei por satisfeito e imaginei que precisava apenas diminuir um pouco a cintura, voltar a me exercitar e pegar mais leve no trabalho. E foi o que eu fiz. Comecei a maneirar na comida, cortei a cerveja por algumas semanas e estava cada vez mais relaxado. Meditava diariamente e não me irritava com muita facilidade. Por um tempo, esses novos, incipientes hábitos ajudaram e as dores cessaram por um tempo. A urina continuava frequente, mas como não havia dor, não me incomodava com aquilo e não fiz o que deveria ter feito na época. Procurado um urologista.

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