00 Introdução - Você não é um lutador

 

Introdução - Você não é um lutador.

“Moléstia e saúde eram dois caroços do mesmo fruto, ...” Machado de Assis em Quincas Borba

O tratamento de um câncer não é uma batalha. Eu poderia ir além e dizer que nenhum tratamento, seja qual for a doença, o é. Pelo menos não para o paciente. Já adianto que eu, particularmente nessa condição, não lutei. Me submeti a exames, aguardei resultados e acatei com os procedimentos propostos pelos médicos que me trataram. Mas não houve luta.

Lutas, batalhas, guerras, são travadas contra um inimigo. Um câncer pode até parecer isso, algo que te causa dor, que te mutila e ameaça a sua existência. Mas é impessoal. Está dentro de você naquele momento e faz parte do seu corpo. A quimioterapia deixa isso muito claro. Para acabar com a doença é necessário que se acabe, até certo ponto, com o seu próprio organismo porque naquele momento os dois são uma coisa só. Não se fala que você está um tanto por cento doente e outro tanto saudável, quando observam uma parte do seu corpo que está tomado por metástase enquanto outros órgãos permanecem limpos. Você está doente. E só. Moléstia e saúde, dois caroços, uma coisa só. O tratamento é uma tentativa ilusória de dissociação dessa coisa única, não separada. Essa coisa que anda, cumprimenta as pessoas, toma água, dirige, ama, mente, briga, trepa, enfim... existe.  A tentativa é fazer com que a doença, que está misturada nessa solução cárnea ambulante e te corroendo por dentro, talvez se identifique com uma ou mais drogas que são meio míopes, dando porrada no que encontra pela frente, mas, cheia de boas intenções, possa vir a ser eliminada ou pelo menos controlada.

Como paciente, nunca tive raiva do câncer em si. Para mim, ter raiva de uma doença é como ter raiva do clima. É um fenômeno natural. Todas as pessoas adoecem em algum momento da vida. Assim como todas, algum dia, irão se molhar com a água da chuva. Às vezes é apenas uma garoa. É chato, desagradável, inconveniente, mas logo passa. O céu se abre, você se seca e fica tudo bem. Outras vezes é uma tempestade que dura dias, abre rachaduras, derruba parte da casa e te deixa inconsciente embaixo de escombros. Você pode até sobreviver, mas fica cheio de cicatrizes, traumas, entre outras sequelas. E eventualmente é um tsunami, que arrasa com tudo em apenas um dia. Num breve instante você se afoga e morre. Em todos os casos, não existe pessoalidade. Acontece. A vida ou a morte.

Durante a internação, aguardando pelo o que ia acontecer, a vida ou a morte, passei a observar, não só as minhas dores físicas e psicológicas, mas o meu entorno. Passei a reparar mais na fisionomia das pessoas que estavam ali ao meu redor, no semblante dos profissionais da saúde que interagiam comigo, na temperatura da cama, no tempo que estava fazendo lá fora, no gosto dos remédios, no cheiro da quimio, na cor do esmalte de uma enfermeira, na textura da sonda que saía do meu pênis, na leveza do sono após uma sessão de morfina. Senti a necessidade de escrever essas impressões. Notei que eram diferentes das dos meus colegas de quarto, alguns já em tratamento paliativo. Talvez essa necessidade tenha surgido como uma tentativa de colocar ordem nos pensamentos e dar sentido àquele período em que eu nunca sabia o que o médico poderia me dizer pela manhã. Talvez tenha sido para matar o tédio. Talvez tenha sido para não me matar.  De certa forma eu sinto que, muito do sentido que eu procuro para esse período de internação, que durou de maio até outubro de 2017, foi encontrado, ou pelo menos questionado através da escrita.

Narro os contos aqui como um simples paciente que ainda está vivo e esteve suficientemente consciente para observar e tomar nota. Não tenho a intenção de escrever um manual de como se comportar positivamente (ou negativamente) perante uma doença que, até hoje, para muitas pessoas, é sinônimo de morte. Este é apenas o meu relato pessoal e situações similares vividas por outros pacientes, podem ter sido por eles, percebidas de forma muito diferente.  Os textos a seguir são apresentados de forma mais ou menos cronológica a partir das minhas experiências. Eventos, questionamentos e reflexões a respeito das condições de se estar doente, o processo de tratamento e suas consequências físicas e psíquicas, o estabelecimento de uma intimidade com a finitude e, em caso de procedimentos bem-sucedidos, equipe de saúde competente e um bocado de sorte, a relação com a vida após a tão esperada (às vezes, nem tanto) alta.

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