04 - Biópsia (Tentativa 01)

 

Após determinar que eu não estava sofrendo com algum tipo de problema urológico, Dr. Eduardo Zanim me indicou um jovem hematologista do COT, o Centro de Oncologia do Triângulo. O tamanho dos linfonodos mostrados na imagem da tomografia e a consequente suspeita de linfoma, deram início à uma corrida para se obter o diagnóstico correto o mais rápido possível. Uma vez que estivesse com a biópsia em mãos, poderia entrar com o pedido de tratamento no Hospital do Câncer de Uberlândia, aquele mesmo do bordado no jaleco.

A primeira tentativa para se identificar a doença foi proposta pelo novo médico. Havia em Uberlândia, um profissional que realizava um procedimento que não era tão invasivo quanto uma laparoscopia. Não lembro qual era a sua especialidade. Só sei que o método era chamado de punção guiada por tomografia, durava em média uma hora, não precisava de acompanhante, dispensava anestesia geral e o mais importante, ficava bem mais em conta que uma cirurgia. Dinheiro, claro, era uma preocupação, mas não tão urgente pois, haviam as economias reservadas para a expansão da Angara que, naturalmente, ficaram em segundo plano naquele momento. Até então eu estava achando que tudo que estava acontecendo, duraria uns dois, no máximo, três meses e que logo estaria de volta ao trabalho, seguindo com todos os planos que havia traçado no começo do ano.

No dia do exame, dirigi sozinho até a clínica. Não me preocupei com o fato de estar sem acompanhante. Ainda não havia passado por nenhuma situação em que ficasse completamente incapaz de me locomover e o exame era simples, de acordo com as informações passadas pela equipe da clínica. O procedimento estava marcado para acontecer por volta das duas da tarde. Me sentia bem, confiante de que o método iria funcionar e, em breve, saberia a qualidade do mal que estava me acometendo. Parte dessa confiança vinha do fato de que, o médico indicado para realizar o exame tinha a reputação de ter 100% de aproveitamento nas tentativas de extração de material para biópsia usando o método de punção guiada por tomografia. O procedimento era realmente simples, do meu ponto de vista. Eu só tinha que ficar imóvel, deitado ali no tomógrafo, enquanto analisavam os pontos onde a punção seria feita. Uma vez determinados, anestesia local era administrada e uma seringa introduzida na região de onde o material seria extraído. Foram necessárias algumas passadas pelo tubo magnético para que as imagens produzidas pela máquina pudessem ser analisadas e o exame executado com exatidão. O local marcado era na região da cintura, onde começa o púbis à direita, na parte interna da região ilíaca. A agulhada em si não foi tão ruim apesar do medo de que aquela seringa enorme pudesse ir de encontro à algum osso da minha bacia. Acho que a história do tenista ainda me assombrava mesmo tendo exames para confirmar que meus ossos de dançar Shakira estavam em excelente estado. My hips don’t lie. Será? Medo de agulhas se chocando com ossos à parte, talvez esse pequeno distúrbio, essa pequena penetração contundente em busca de informações internas que serviriam posteriormente para atacar o meu desarranjo físico, tenha despertado alguma coisa e essa entidade começou a se irritar dentro de mim. Um exame que teria acontecido sem maiores imprevistos, aos poucos passou a exigir um certo esforço de minha parte. A posição em que o meu corpo precisou permanecer, intrêmulo, começou a gerar um desconforto que logo se transformou em dor. A impressão que eu tinha era de que eu havia perdido a elasticidade, que não era suficientemente flexível para permanecer esticado, com o torso reteso. Me senti ressecado, como um pedaço de casca de madeira pegando fogo e querendo se enrolar em torno de si mesma, me esforçando para não me contrair, não me fechar em posição fetal. A esteira fria onde eu me deitava na máquina e o ar condicionado ligado em sua potência máxima logo não me incomodavam tanto pois sentia calor e comecei a suar. Calor gerado por tentar manter a posição esperada para a realização do exame. Fechei o punho, cerrei os dentes, lágrimas escorreram, mas ali permaneci, firme. Eu não me mexi.  

Terminada a extração, foi feito um pequeno curativo onde eu havia sido perfurado e antes de colocarem o último esparadrapo, já estava me levantando daquela máquina que havia se transformado em um aparato da inquisição por mais ou menos uma hora. Senti um enorme alívio ao me sentar na beirada do tomógrafo e ali fiquei alguns minutos até ser liberado por alguém da equipe. Saí da clínica andando lentamente com as costas arqueadas e um semblante de derrota. Quando consegui chegar no carro, percebi que não estava sentindo mais dores. Com a ausência de desconforto, por algum tempo fiquei com a impressão de que o que tinha acontecido alguns minutos antes não foi assim, tão ruim. Mas foi. Foi muito ruim. Entretanto estava incrédulo e fiquei conversando comigo mesmo, coisas do tipo: “Caramba, o que foi isso? ... Que loucura... Eu hein...” Quis fazer vista grossa para o ocorrido e já que estava nas proximidades do Uberlândia Shopping, achei que seria uma boa ideia ir ao cinema e tentar esquecer um pouco da experiência.

Foi uma péssima ideia. Achando que o pior já havia passado, imaginei que não sentiria mais nada naquele dia e fui assistir King Kong e a Ilha da Caveira. Comprei uma Coca-Cola grande e um balde pipocas e fiquei ali sentando naquela poltrona confortável, me refestelando com um lanche que custa quase o valor de uma cesta básica. Mas aquele era o meu momento e eu achava que merecia um pouco de conforto após o exame perfurante. Além de que, eu sempre gostei de ir ao cinema sozinho, então, para mim, aquela tarde seria uma oportunidade perfeita para transformar um dia ruim em um dia bom. Acho que a palavra da moda é ressignificar. Sem ninguém para dispersar a minha atenção, sentindo que poderia me satisfazer através de uma recompensação pessoal justificada e comendo porcarias hipercalóricas, assisti a quase todo o filme sem maiores perturbações. Quase. Faltando 30 minutos para o final da película, as dores recomeçaram. Por um momento achei que elas parariam de gritar e pudessem ir embora. Passados dez minutos, nada disso aconteceu e a situação estava piorando. Saí da sala em direção ao estacionamento, torcendo para que a dor permanecesse estável. No caminho para casa, tentei canalizar a mesma energia que permitiu que eu ficasse paradinho, sem me mexer, no tomógrafo. Só que agora era para ter condições de dirigir e chegar em casa são e salvo. Focado em todos os meus movimentos, ainda consigo lembrar da textura do volante e do encaixe das marchas no câmbio. Aquela atenção plena em todos os meus movimentos, contando esquina por esquina, vendo as faixas da pista rolarem, sentindo a movimentação dos amortecedores ao passar pelos quebra-molas e tentando manter a respiração estável, parecia que daria certo. Ainda assim, eu já havia bolado um plano B na cabeça e murmurava como um doido falando sozinho - “se ficar insuportável, eu paro o carro e ligo para alguém ou peço ajuda para algum estranho da rua mesmo”. Felizmente, toda a atenção, toda aquela concentração deu resultado e finalmente consegui chegar em casa. Só mais alguns lances de escada e estaria são e salvo. Quando entrei pela porta, me dei conta que havia feito duas das coisas mais idiotas em toda a minha vida. Ter ido me submeter àquele exame sem levar acompanhante e não ter voltado para casa assim que estivesse terminado. Jurei que nunca mais faria algo de tipo. Fiquei um tempo deitado na cama, olhando para as paredes, meio perdido. Não estava sentindo nada, nenhum desconforto, mas ali eu comecei a me ver impotente e o começo de uma tristeza que vem embrulhada em papel de receita médica passou a fazer parte do meu dia a dia. Ainda era apenas uma lembrancinha, só um pacotinho de infelicidade. Se não ficasse maior que aquilo, seria fácil descartar nos próximos dias ou semanas. Infelizmente os pacotes e seus embrulhos ficariam cada vez maiores. E rápido. Aquele momento de melancolia encarando o branco, não durou muito. 40 minutos depois, a primeira onda massiva de dor me atingiria e mudaria a forma com que eu me pensava e relacionava com o meu corpo e minha própria existência. Os dois próximos textos podem ser lidos como interlúdios. Foram escritos dias após as crises e eu decidi por deixá-los na forma em que foram concebidos. Avulsos. Rupturas dentro desta narrativa. Rupturas como as que estavam acontecendo dentro de mim.

Apesar de ter associado o momento de crise à extração do material para a biópsia, na verdade eu não sei se comecei a sofrer com as dores de forma mais incisiva por causa das perfurações do procedimento realizado. Talvez tenha sido uma mera coincidência. De qualquer forma, as dores chegariam mais cedo ou mais tarde. Era inevitável e não sei se haveria alguma maneira de averiguar isso, o que também, seria irrelevante. O importante naquele momento era aguardar pela análise do material coletado. Alguns dias depois, chegara um envelope enviado pelo laboratório de patologia. O exame detalhava o tipo de material extraído, a data, método utilizada para a extração, entre outras informações. Na última linha do informe, lia-se: resultado inconclusivo.

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

01 - Diagnóstico (Parte 01)

00 Introdução - Você não é um lutador