05 - Biópsia (Tentativa 03)
Tendo sido responsável pela quebra de uma sequência de
sucessos em extração de material para biópsia através da punção guiada por tomografia,
volto ao consultório do hematologista para saber o que fazer depois do
desengano. Foi decidido que um cirurgião do centro oncológico seria responsável
pela extração do material e que dessa vez seria uma laparoscopia que, não é a
cirurgia mais invasiva do mundo, mas é uma cirurgia. Com internação, anestesia
geral, aquela comida monocromática de hospital antes de se ficar em jejum e
aquele look transado entreaberto nos fundos deixando uma visão apocalíptica
para enfermeiros, acompanhantes e demais desavisados que possam ter a má sorte
de me ver de costas.
Precisava então, de um cirurgião oncológico e que me
foi apresentado pelo médico sanguíneo. Dr. Michel Chebel, que, naquele momento,
assim como eu, não sabia que seria responsável por quatro dos oito procedimentos
dos quais eu ainda iria me submeter durante todo o tratamento, foi o cirurgião
designado para vasculhar as minhas entranhas em busca do órgão distribuidor do
padecimento e, até hoje, fazendo o acompanhamento, em meados de 2022, se for
decidido que será necessário entrar na faca mais vez, provavelmente será com
ele, pois, assim como o Dr. Zanim, Dr. Chebel também trabalha no Hospital do
Câncer de Uberlândia e enquanto paciente de lá, estou sob os seus cuidados
cirúrgicos.
Ele também, ao analisar a imagem proveniente da
tomografia, foi direcionado à conclusão de que o problema era causado pelos
linfonodos, cujo aumento anormal chamado de linfonodomegalia pode indicar que o
corpo está lidando com algum tipo de câncer. Através dessas imagens, foi
surgindo um forte indicativo de que o tipo do câncer a ser tratado poderia ser
linfoma, o adoecimento do meu sistema de defesa imunológico e, a partir dessa
observação, foi traçada uma nova estratégia para a remoção de material para a
biópsia. A identidade da doença estava prestes a ser revelada. Pelo menos foi o
que nós pensamos.
Alguns dias depois, a minha primeira experiência
cirúrgica aconteceu sem imprevistos. Não lembro se estava nervoso antes de
entrar para a sala do hospital onde o procedimento foi realizado. Mas me lembro
bem da sensação de acordar e não sentir as pernas, o que me remeteu a Uma
Thurman em Kill Bill, conversando com os dedos dos pés, dentro do Pussy Wagon (wiggle, your big toe) após matar o caminhoneiro
estuprador e Buck (and you came here to
fuck, right?), o enfermeiro de plantão no hospital onde ela estava
internada em coma. Naquela época, ao assistir a película, desconfio que muita
gente pensou – ah, isso só acontece em filme... Em julho de 2022 descobrimos,
através do crime repulsivo perpetrado pelo médico estuprador, Giovanni Quintella
Bezerra, que ser mulher, em qualquer lugar do mundo é não estar segura em lugar
nenhum, nunca. Felizmente, minha associação à cena não se referia à uma
violência sexual e sim ao fato de estar paralisado da cintura para baixo. Já de
volta ao quarto, ainda meio grogue, fiquei mentalmente repetindo as palavras de
Beatrix Kiddo – Mexa, dedão do pé... Mexa, dedão do pé... Mexa...
Eventualmente, mexeu e ficou tudo bem. Fui dispensado do pernoite, recebi alta
e dormi em casa. Acordei me sentindo muito bem, com pouquíssima dor. Dois dias
depois, notei também que aquela secura, aquela falta de elasticidade na parte
central do meu corpo havia melhorado um tanto considerável. No terceiro dia
após a cirurgia, voltei ao Centro Oncológico para uma consulta e reportei que
estava me sentindo bem melhor. Dr. Michel revelou alguns detalhes do
procedimento dizendo que retirou alguns linfonodos doentes e uma boa parte do
peritônio, uma membrana que reveste as paredes abdominais e protege os órgãos
ali contidos. Essa membrana, ao ser visualizada através da câmera
laparoscópica, já estava bastante tomada por carcinomatose. Se fosse um
linfoma, isso significaria metástase. Se fosse um câncer peritoneal, a
linfonodomegalia poderia também, indicar metástase. O fato é que, apenas pela
cirurgia em si, apenas pela visualização através da câmera, ao invés de
definição, haviam mais dúvidas que certezas. Nos restava esperar pela análise
laboratorial.
Enquanto o laboratório não enviava os resultados,
passei mais dois dias tranquilos. O cirurgião desconfiava que esse novo
bem-estar era resultado da retirada dessa porção de tecido adoecido que estava
ali fazendo pressão de dentro para fora. O que fazia muito sentido. Passei cinco
dias pós cirúrgicos acompanhados de uma inesperada paz. Foi apenas no sexto dia
depois de ter saído do hospital que notei que ainda não havia ido ao banheiro
para evacuar. Estava comendo bem, me hidratando, movimentando, me sentindo bem
melhor do que estava uma semana antes quando senti uma pequena vontade intestinal.
A princípio, não estava sentindo nenhum desconforto, mas ao tentar expulsar o
subproduto da minha alimentação, nada aconteceu. Nas primeiras tentativas
aquilo não incomodou muito. Deixei para lá. Quando vier, virá. Não veio e, o
sétimo dia não foi nada adventista. Aquela situação, de um dia para o outro, se
tornou insuportável. A palavra, enfezado, não saía da minha cabeça. Cheio de
fezes, irritado, sem condições de expurgar o meu lixo corporal. Perdi as contas
das tentativas frustradas e fui ficando exausto daquilo. Supositórios: um,
dois, três e, nada. Combinados a várias colheres de óleo mineral, também sem
resultado. Desesperado, entrei na internet e vi que existe um produto chamado
Fleet Enema. Como esse produto era usado? As instruções sugeriam deitar-se de
lado e dobrar os joelhos. A ponta é introduzida lentamente no ânus até chegar
no reto. O frasco é apertado para liberar o líquido na esperança de dissolver,
não só a sua dignidade, mas também a matéria endurecida dentro do seu reto.
Decidi que faria isso no box do chuveiro. Me parecia que era o único lugar
possível de se operar tal procedimento em casa. Várias tentativas, sem nenhum
resultado. A situação estava ficando crítica. Para uma pessoa que, como eu,
normalmente não sofre com prisão de ventre, aquilo era uma tortura. Decidi
ligar para um amigo médico, o Dr. André Navarro, na esperança de existir alguma
solução caseira para aquela provação. Dr. André prontamente me passou o contato
de uma enfermeira que poderia realizar uma lavagem intestinal sem que eu
tivesse que sair de casa. Era o meu último subterfugio antes de recorrer ao
Pronto Socorro. Naquele mesmo dia consegui ser atendido por uma senhora que, ao
chegar no meu apartamento, sem cerimônias, me pediu para deitar de lado, nu da
parte da cintura para baixo e foi afastando as minhas nádegas com uma das mãos
e introduzindo um cateter no meu ânus com a outra. Uma solução, cujo conteúdo
eu desconheço, era ali esguichada na tentativa de eu me livrar do fecaloma. O
lugar escolhido para o procedimento foi uma cama que ficava estrategicamente ao
lado da entrada de um dos banheiros. Ali, fui instruído pela enfermeira a receber
aquela chuca degradante, fazer força para o esfíncter segurar a pressão por um
tempo e sentar no vaso para tentar expulsar toda a miséria. Foram necessárias
três aplicações. Três seguradas. Três forças. Ao final da terceira, com uma
explosão anal de proporção assombrosa cujo alívio me deixou com lágrimas no
rosto, me livrei das consequências de ter o meu intestino tolhido pelos efeitos
da anestesia. Chorei e ri ao mesmo tempo. Foi uma sensação difícil de ser
descrita. Assim como o que foi expurgado violentamente na porcelana. E
sinceramente, acho que ninguém gostaria de uma descrição tão abjeta. Me
higienizei e saí do banheiro alguns minutos depois. Agradeci e paguei a senhora
por ter sido a minha primeira e ter sido tão carinhosa e compreensiva. Ela riu
sem graça da piadinha infame, foi embora e eu, já completamente desprovido de
pudor, depois de uma sodomização sem prazer algum para ninguém envolvido,
voltei ao banheiro ainda algumas vezes naquele dia, mas sem sofrimento. E bem a
tempo, pois, no dia seguinte chegariam os resultados da segunda tentativa de biópsia.
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