02 - Viagem

 

O ano de 2017 chega sem maiores contratempos. As dores de novembro não aumentam e eu me dou por curado da meralgia parestésica. Essa paz permitiu que novos planos profissionais e pessoais fossem traçados. Motivado pelas boas vendas no fim de 2016, houve um aumento na produção da empresa em janeiro e, logo após, no mês seguinte, já começavam os preparativos para o Saint Patrick’s Day. Uma data importante, tanto pelo potencial de venda quanto pela comemoração da criação da Angara. O feriado irlandês foi responsável pela oficialização do nome pois, antes mesmo de a ter batizado, a fabriqueta já vendia alguns produtos para colegas de trabalho, amigos e familiares. Porém, foi só com o convite de servir os comensais da saudosa loja uberlandense de insumos cervejeiros, Fuggles, no dia verde de 2013, que a necessidade de um nome surgiu para fins de divulgação do evento.

Decidir pelo nome Angara não foi difícil. Eu sempre quis homenagear de alguma forma o país onde concluí o ensino médio e o povo que tanto me acolheu numa vila perto da fronteira da Mongólia e da China, região onde nasceu a mãe de Genghis Khan. Dormindo, acabei sonhando com as espaçosas planícies da estepe russa e com a viagem de seis dias pela ferrovia transiberiana. Jornada que tive o privilégio de fazer no verão de 2001 com os Zhamsaranovs, a minha família anfitriã do intercâmbio. Na ocasião, pegamos o trem que havia saído de Pequim dias antes, na cidade de Chita em direção à capital, Moscou. Passamos pelo sul do lago Baikal, contornando os espaços de onde se podia ver blocos de gelo ainda derretendo e refletindo a luz do sol contrastando com o azul profundo do espelho d’água, conferindo uma das mais belas e dramáticas visões que já pude presenciar. Inspirado pelo sonho, abri o computador e comecei a ler lendas folclóricas do povo Buryat, etnia que povoa a região do lago e sua parte leste, chamada de Zabaikalya, cuja tradução seria algo como, Além do Baikal. Uma das lendas me chamou a atenção. A lenda da única filha do lago. A bela Angara. O único rio que sai dali. Peka, em russo (lê-se rieká) e está no feminino. Uma bela entidade. O nome me pareceu perfeito e assim eu a batizei.

Eu gostava de me preparar bem para os eventos cervejeiros que surgiam. Decidi por fazer algo diferente e tive a ideia de aproveitar o feriado de carnaval de 2017, duas semanas antes do evento e visitar algumas fazendas produtoras de queijos no interior de São Paulo, nas cidades de Joanópolis e Amparo. Apesar de ser mineiro, nunca me deixei levar por bairrismo, quanto mais em relação à produção de queijos que é tradição não só no meu estado. Além disso, as fazendas Capril do Bosque e Atalaia já eram e continuam sendo referência na produção de belíssimos queijos, vários deles, premiados tanto no Brasil quanto internacionalmente e a ideia era trazer vários exemplares a Uberlândia e promover uma degustação com harmonização guiada. Aproveitando a viagem, eu minha então companheira, também achamos que seria uma boa ideia se no caminho visitássemos o templo Zu-Lai, um belo templo budista em Cotia. Não éramos e pelo menos eu, ainda não sou budista. Mas a ideia de uma manhã de contemplação em meio ao feriado de carnaval nos pareceu muito apropriada.

Pegamos a estrada e fizemos uma boa viagem até chegar ao hotel em São Paulo. Tudo tranquilo, mas, logo na primeira ida ao banheiro, um sinal de que algo não estava bem. Senti uma forte dor ao evacuar, uma dor diferente. Foi a minha primeira preocupação. Eis um momento crítico que todo mundo deveria, pelo menos, ficar atento – se o seu ânus dói ao fazer algo que normalmente não lhe causa incômodo, alguma coisa deve estar muito errada. Mas haveria algo além das dores que seria ainda mais preocupante. Sem entrar em maiores detalhes, no quarto do hotel ao retirar o preservativo, notei a presença de sangue misturado ao esperma. Não comentei nada. Não queria estragar o passeio. Mas fiquei o resto da viagem falando para mim mesmo que ao chegar de volta em Uberlândia, iria procura imediatamente por um urologista. Decisão que ficou ainda mais clara durante o dia que passamos no Templo com as dores lombares se intensificando. De alguma forma eu ainda me recusava a acreditar que era algo mais sério e segui com a ideia de que estava sofrendo com a meralgia, com o sobrepeso, com as horas dirigindo na estrada e que nada daquilo poderia estar relacionado a algo mais grave. Uma busca rápida pela Internet e já tive uma ideia do que poderia ser, de acordo com as dores que estava sentindo. Inflamação da próstata ou cálculo renal. Era o que eu precisava saber, mesmo que equivocadamente, para continuar a viagem sem maiores preocupações.

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