03 - Diagnóstico (Parte 02)
Na volta a
Uberlândia, procurei imediatamente por um. Mais uma vez, pedi a amigos que
pudessem indicar um médico de confiança. Felizmente, dois deles, que também são
médicos, me apontaram para o mesmo nome: Dr. Eduardo Zanim. Dr. Zanim era uma
figura lacônica e que poderia ser facilmente confundida com alguém que tem um
desprezo profundo por seus pacientes. Não sorri, não conversa sobre o tempo,
futebol, nem mesmo sobre o escândalo que não parava de passar na TV naquela
época, a operação Carne Fraca, aquela do papelão na carne moída. Ele também não
tem muito interesse na sua vida pessoal e isso talvez possa deixar muita gente
desconfortável. Alguns poderiam até dizer que ele é mal-educado. Felizmente, eu
estava cagando (sentindo dores ainda) se ele era ou não, gente boa. Não estava
ali para falar dos meus sentimentos. Ele não era o meu terapeuta. Curiosamente,
mesmo com certa rispidez, senti uma firmeza naquele profissional. Uma firmeza
que faltava no médico gente fina que havia me atendido em novembro do ano
anterior, aquele que receitou cuecas frouxas. Ao ficar frente a frente com o Dr.
Eduardo, a primeira coisa que notei foi o seu jaleco, que tinha um bordado de
um trevo azul com quatro mãos e embaixo da logomarca lia-se: Hospital do Câncer
Uberlândia. Mas confesso que não pensei muito sobre aquilo. Minhas apostas
ainda eram na prostatite ou cálculo renal e o fato de ele também trabalhar no
HC, para mim era apenas um sinal a mais de que ali estava um excelente
profissional, apesar da falta de sorrisos.
Durante a
consulta ele fez algumas perguntas e pediu exames de imagem. Um ultrassom da
bexiga, rins e testículos. Uma vez realizados, ao analisar as imagens, o diagnóstico
inicial era de cálculo renal. Entretanto, a imagem do exame não era tão nítida.
Havia uma pequena mancha sobreposta ao rim e Dr. Zanim parecia intrigado.
- Não
parece ser grave, mas... acho que tem algo a mais. Você tem condições de fazer
uma tomografia, Humberto?
Pode não
parecer muito, mas essa pequena desconfiança por parte do médico, pode ter
salvado a minha vida. Eu poderia muito bem ter saído do seu consultório
acreditando que estava com pedra nos rins e pronto. Eu mesmo já estava contando
com isso por causa das pesquisas que havia feito na internet. Porém, o que o
Dr. Zanim fez, que o ortopedista não fez, foi buscar mais informações para um
diagnóstico mais preciso ao pedir que eu fizesse essa tomografia. Não gosto nem
de pensar no tempo a mais que eu teria gasto para chegar a um diagnóstico
correto caso ele tivesse se dado por satisfeito com as imagens do ultrassom.
Alguns
dias depois, recebi o resultado e ao analisar as novas imagens, foi percebido
que haviam alguns linfonodos inchados, o que pode indicar algum tipo de doença
linfoproliferativa, mais especificamente, um linfoma.
Curiosamente,
a notícia não me abalou. O mais importante naquele momento era determinar a
gravidade da doença e começar o tratamento o mais rápido possível. Mas antes
disso, era preciso identificar com toda a certeza, qual era doença. A
tomografia tinha mostrado os linfonodos alterados, mas isso não indica com
precisão o que poderia estar causando os inchaços. Começava nesse momento, a corrida das
biópsias.
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